Monthly Archives: janeiro 2017

Todos os povos amam seus poetas

 

Trecho de uma entrevista com o Paulo Leminski em 1985, onde ele fala que todos os povos amam seus poetas. 

“O poeta não é um ser de luxo, ele não é um excrescência ornamental da sociedade, ele é uma necessidade orgânica de uma sociedade. A sociedade precisa daquela loucura para respirar, é através da loucura dos poetas, através da ruptura que eles representam que a sociedade respira.”

O conto do galo estressado

 
 
 
“Era um galo que cantava por acreditar que o seu canto era o responsável por fazer o sol nascer.  Todas as manhãs eram iguais.
O galo acordava antes de o sol nascer com o céu ligeiramente azulado, subia no telhado e lançava o seu canto imponente. 
Alguns minutos depois, lá estava o sol brilhando em todo seu esplendor. 
Só então o galo cuidava dos afazeres do terreiro: expulsar invasores, proteger suas galinhas, ciscar…
No galinheiro era tido como um deus todo poderoso. Todos o respeitavam.
O galo vivia estressado por conta de sua responsabilidade: já pensou se algum dia perdesse a hora? E se ficasse rouco? Era um enorme fardo.
Dia após dia, noites e noites mal dormidas na expectativa de acordar no horário de fazer o sol nascer.
 
Uma manhã ele não acordou. O estresse da incumbência fez com que perdesse a hora.
Qual não foi o seu espanto ao acordar por volta do meio-dia e ver que o sol nascera a despeito da ausência do seu canto e no galinheiro estava naturalmente tudo igual , sem a sua gerência.
Ao se levantar foi alvo de piadas de todos do quintal que dele escarneciam.
Seu mundo ruíra . Tudo em que acreditara era agora um monte de escombros sobre o qual não podia esconder sua humilhação.
Porém, repentinamente algo aconteceu em seu interior.
 
O galo percebeu a leveza causada pela ausência do antigo fardo. Sentiu-se leve e feliz.
Subiu no telhado e cantou como nunca cantara antes: a plenos pulmões. Um canto de alívio que emocionou verdadeiramente a todos. 
Um canto de pura arte. 
E desta vez não soou somente como o sinal da chegada do momento de acordar e pegar na árdua lida do dia.
A partir desse dia o galo cantava não para fazer o sol nascer, mas para celebrar o seu nascimento, certo de que aconteceria independentemente da sua vontade, com isto percebeu que tinha menos a fazer e mais a celebrar.”
 
Ps:
 
Realmente não sei quem é o autor.

A imensa vassoura luminosa

 

“O certo é que o sol, como uma imensa vassoura luminosa, rompeu de repente o nevoeiro empurrando-o para longe.” 

José Saramago

Trecho retirado do livro  “A viagem do Elefante.”

Tarde de Inverno

Mais um dia de Junho se vai, trazendo o frio de uma tarde de inverno. Em alguma igreja longínqua termina a última missa do dia, o campanário toca seus sinos em meio ao silêncio da tarde, trazendo doces melodias ao arraial.

Pessoas voltam para casa, caminhando em meio ao vento frio e folhinhas secas a dançarem no céu. No ar, o cheiro úmido do um lugarejo centenário, misturado à fumaça de um fogão a lenha, que insiste, solitário, em perfumar e encantar a tarde que cai.

Um galo canta… longe… quase imperceptível… se despedindo do dia, perdido em algum quintal em meio ao silêncio.

A noite vem abraçando o arraial, lenta, vagarosa, como a milênios sem fim insiste em fazer.

Estrelas caem aqui e ali como lampiões alados, as casas aos poucos se acendem, colorindo a noite com gotas de luz.

Na ternura da noite estrelada, as velas são acesas e o vinho é servido nas rústicas mesas das casinhas do arraial centenário.

 

Wagner Tibiriçá /  Tarde de inverno – 2012

Sobre gostar e ter

 
 
 “… Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter… Ter deve ser a pior maneira de gostar…”
 
                                                                                   Do livro o conto da ilha desconhecida, de José Saramago.