Paragens poéticas

E a gente vai pegando essas folhas de poesias caídas por ai

 

A poesia, bem, a poesia é a sobremesa da vida.
 
Poesia de Almeida Garret

“Antes que venha o Inverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por aí caíram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memória.”

Almeida Garret

Sobre a sabedoria

 

“Sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo”

                                                                                               Ricardo Reis

 

Do livro: (O ano da morte de Ricardo Reis) de José Saramago.

 

Porque eu escrevo

Ora, escrevo porque eu gosto, mesmo que isto não tenha nenhum valor,

 …mas este texto do Borges fala sobre este tema de forma absolutamente perfeita,

“Hoje de manhã me perguntaram se eu escrevia para a maioria ou para a minoria, e eu respondi, como respondi tantas vezes que se fosse Robson Crusoé em minha ilha deserta, eu continuaria escrevendo.
Ou seja, eu não escrevo para ninguém, eu escrevo porque sinto uma íntima necessidade de fazê-lo. Isto não significa que eu aprove o que eu escrevo, posso não gostar, mas eu tenho que escrever aquilo naquele momento.
Caso contrário me sinto… injustificado e infeliz, sim, desventurado.
Por outro lado, se escrevo, o que eu escrever pode não ter valor, mas enquanto escrevo me sinto justificado; penso: estou cumprindo com o meu destino de escritor, sem considerar o que a minha escrita possa valer.”

                                                           

Jorge Luís Borges

 

Todos os povos amam seus poetas

 

Trecho de uma entrevista com o Paulo Leminski em 1985, onde ele fala que todos os povos amam seus poetas. 

“O poeta não é um ser de luxo, ele não é um excrescência ornamental da sociedade, ele é uma necessidade orgânica de uma sociedade. A sociedade precisa daquela loucura para respirar, é através da loucura dos poetas, através da ruptura que eles representam que a sociedade respira.”

O conto do galo estressado

 
 
 
“Era um galo que cantava por acreditar que o seu canto era o responsável por fazer o sol nascer.  Todas as manhãs eram iguais.
O galo acordava antes de o sol nascer com o céu ligeiramente azulado, subia no telhado e lançava o seu canto imponente. 
Alguns minutos depois, lá estava o sol brilhando em todo seu esplendor. 
Só então o galo cuidava dos afazeres do terreiro: expulsar invasores, proteger suas galinhas, ciscar…
No galinheiro era tido como um deus todo poderoso. Todos o respeitavam.
O galo vivia estressado por conta de sua responsabilidade: já pensou se algum dia perdesse a hora? E se ficasse rouco? Era um enorme fardo.
Dia após dia, noites e noites mal dormidas na expectativa de acordar no horário de fazer o sol nascer.
 
Uma manhã ele não acordou. O estresse da incumbência fez com que perdesse a hora.
Qual não foi o seu espanto ao acordar por volta do meio-dia e ver que o sol nascera a despeito da ausência do seu canto e no galinheiro estava naturalmente tudo igual , sem a sua gerência.
Ao se levantar foi alvo de piadas de todos do quintal que dele escarneciam.
Seu mundo ruíra . Tudo em que acreditara era agora um monte de escombros sobre o qual não podia esconder sua humilhação.
Porém, repentinamente algo aconteceu em seu interior.
 
O galo percebeu a leveza causada pela ausência do antigo fardo. Sentiu-se leve e feliz.
Subiu no telhado e cantou como nunca cantara antes: a plenos pulmões. Um canto de alívio que emocionou verdadeiramente a todos. 
Um canto de pura arte. 
E desta vez não soou somente como o sinal da chegada do momento de acordar e pegar na árdua lida do dia.
A partir desse dia o galo cantava não para fazer o sol nascer, mas para celebrar o seu nascimento, certo de que aconteceria independentemente da sua vontade, com isto percebeu que tinha menos a fazer e mais a celebrar.”
 
Ps:
 
Realmente não sei quem é o autor.

A imensa vassoura luminosa

 

“O certo é que o sol, como uma imensa vassoura luminosa, rompeu de repente o nevoeiro empurrando-o para longe.” 

José Saramago

Trecho retirado do livro  “A viagem do Elefante.”

Tarde de Inverno

Mais um dia de Junho se vai, trazendo o frio de uma tarde de inverno. Em alguma igreja longínqua termina a última missa do dia, o campanário toca seus sinos em meio ao silêncio da tarde, trazendo doces melodias ao arraial.

Pessoas voltam para casa, caminhando em meio ao vento frio e folhinhas secas a dançarem no céu. No ar, o cheiro úmido do um lugarejo centenário, misturado à fumaça de um fogão a lenha, que insiste, solitário, em perfumar e encantar a tarde que cai.

Um galo canta… longe… quase imperceptível… se despedindo do dia, perdido em algum quintal em meio ao silêncio.

A noite vem abraçando o arraial, lenta, vagarosa, como a milênios sem fim insiste em fazer.

Estrelas caem aqui e ali como lampiões alados, as casas aos poucos se acendem, colorindo a noite com gotas de luz.

Na ternura da noite estrelada, as velas são acesas e o vinho é servido nas rústicas mesas das casinhas do arraial centenário.

 

Wagner Tibiriçá /  Tarde de inverno – 2012

Sobre gostar e ter

 
 
 “… Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter… Ter deve ser a pior maneira de gostar…”
 
                                                                                   Do livro o conto da ilha desconhecida, de José Saramago.
 

Poema em linha reta

Poema em linha reta de Fernando Pessoa, em uma interpretação antológica do Osmar Prado

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

 

As gaiolas das certezas

 
“Os homens dizem amar a liberdade, mas, de posse dela, são tomados por um grande medo e fogem para abrigos seguros. A liberdade dá medo. Os homens são pássaros que amam o voo, mas têm medo dos abismos. Por isso abandonam o vôo e se trancam em gaiolas.
 
 
 

Somos assim: sonhamos o voo mas tememos a altura.Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece.O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas.Por isso trocamos o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.”

Dostoiévski, em (Os irmãos Karamazóv)